Natal dos Hospitais

Se há programas míticos na RTP, um deles é o célebre “Natal dos Hospitais”, que é uma das imagens de marca do canal a par do “Festival RTP da Canção”, segundo um estudo feito pela própria televisão estatal há alguns anos.

Este é o programa de entretenimento mais antigo da televisão, tendo começado ainda antes dela, numa iniciativa do Diário de Notícias, em 1944. Esta iniciativa foi inspirada pela poetisa Lutgarda Guimarães de Caires (falecida em 1935), que, depois da morte prematura da sua filha, visitava todos os anos no Natal as crianças do Hospital Dona Estefânia, oferecendo-lhes presentes e os seus poemas.

O primeiro "Natal dos Hospitais".
Vasco Santana e Mirita Casimiro no primeiro “Natal dos Hospitais”.

Em 1944, algumas das primeiras presenças foram as de Vasco Santana e Mirita Casimiro, actores de renome naquela época. Ao contrário do que actualmente é feito e até à década de 1990, o Natal dos Hospitais reunia artistas de vários quadrantes e não só cantores. Eram famosos também os números de circo, de bailarinos, de mágicos, de atores, sempre com muita cor e boa disposição.

A ideia deste evento prende-se sobretudo com a caridade, e em pleno Estado Novo era um dos motes de Salazar para passar a sua doutrina, onde a Igreja Católica e a ajuda aos outros estava patente, bem como o ideal de família. A ideia de levar música e entretenimento aos mais desfavorecidos numa altura como esta do ano continua ainda hoje a estar próximo da ideia de caridade.

A RTP associou-se a este evento em 1958, no seu segundo ano de vida, e até hoje todos os anos foi transmitido o Natal dos Hospitais. A apresentação esteve a cargo do grande Henrique Mendes, e a primeira figura a actuar foi a actriz Beatriz Costa. Ao longo do tempo passaram por este evento as caras mais marcantes da RTP, muitas delas já hoje desaparecidas: Maria Fernanda, Isabel Wolmar, Artur Agostinho, Alice Cruz, Pedro Moutinho, Eládio Clímaco, Fialho Gouveia, Carlos Cruz, Maria Leonor, Luís Pereira de Sousa, Ana do Carmo, António Sala, Maria João Carreira, Ivone Ferreira, Ana Paula Reis, Júlio Isidro, Manuel Luís Goucha, Isabel Angelino, Sónia Araújo, Jorge Gabriel, José Carlos Malato, Sílvia Alberto, Catarina Furtado, Tânia Ribas de Oliveira, e muitos outros. Ao longo de muitos anos, Luís Andrade foi o realizador do espectáculo e procurava levar carinho e aproximar os espectadores da realidade de quem sofre, garantindo a importância do “Natal dos Hospitais” e dum evento desta dimensão.


Carlos Paião foi um dos cantores convidados vários anos para abrilhantar o Natal dos Hospitais, aqui num registo de 1981.

A partir de 1962, começou também a ser transmitido pela antiga Emissora Nacional, e com a nacionalização foi transmitido pela Antena 1 até ao final do século XX, maximizando assim audiência. Durante as décadas de 1970 e 1980, o evento era transmitido apenas durante o período da tarde, das 14 às 19 horas, e muitas das vezes fora dos próprios hospitais. Em alguns anos foram transmitidos a partir do Coliseu dos Recreios e outros do Casino Estoril.

No entanto, o essencial era mesmo o evento nos hospitais para os doentes aí internados. Durante alguns anos e até 2005, a parte da manhã era preenchida pelo Natal dos Hospitais em directo dos Açores e da Madeira e posteriormente de um dos hospitais da área metropolitana do Porto. A tarde então era composta pelas actuações e pela transmissão a partir da região de Lisboa. Desde 2006, a emissão passou a ser intercalada entre um local e outro, tendo muitas vezes ainda ligações a outros hospitais onde são doados alguns bens por repórteres da RTP. A partir do ano 2000 e não de forma constante, em alguns anos houve ainda uma terceira parte, de noite, a seguir ao “Telejornal”.

Mítica foi também a colaboração da Phillips portuguesa, que, durante a década de 1980 e 1990, foi responsável por doar para várias instituições hospitalares e prisionais vários televisores e vídeos. É giro vermos como a tecnologia é importante e vermos, nos primeiros anos da década de 1980, sortear televisores a cores.

Um dos momentos épicos hoje recordados é a presença de Pedro Abrunhosa, no “Natal dos Hospitais 1989”, com um grupo de jazz do Porto e ainda ao natural, sem os seus óculos escuros.

Actualmente o programa é transmitido na primeira quinzena de Dezembro, ao contrário do que acontecia durante as décadas anteriores, que era sempre transmitido durante as férias do Natal já, o que fazia com que para muitos da minha geração fosse um dia santo em frente ao televisor para ver os maiores cantores da música portuguesa. Hoje em dia o evento decaiu um pouco, sobretudo a nível musical, onde já não há tantos artistas de renome a pisar o palco. Até aos primeiros anos da década de 1980, o evento era sempre fechado por uma das duas grandes referências da música portuguesa: Amália Rodrigues e Hermínia Silva. Durante essa década, foi Herman José e os seus magníficos personagens a fechar o programa, sendo seguido depois ao longo da década de 1990 por Marco Paulo, até há alguns anos. Na atualidade, Tony Carreira é a figura central.

Outro dos momentos que se perderam, a partir dos anos 2000, foi o momento infanto-juvenil. Eram célebres os grupos que durante os anos 1980 e 1990 mostravam nesta altura os seus novos temas e que os jovens deliravam por ver, tais como os Onda Choc ou os Ministars, ou posteriormente os Malta Pop e os Starkids. Também destes momentos infantis faziam parte Carlos Alberto Moniz, o Avô Cantigas e Nuno & Henrique (Feist).

https://www.youtube.com/watch?v=xyAOILtfJkE&w=320&h=295

Também Ana Malhoa esteve presente em várias edições do “Natal dos Hospitais”. Aqui, em versão mini com o seu pai, José Malhoa, em 1989.

Quer a TVI quer a SIC já tentaram copiar este evento, com o “Há Festa no Hospital” ou “O Natal das Prisões”, mas nenhum conseguiu chegar aos calcanhares do fenómeno que o “Natal dos Hospitais” representa na RTP, com os seus 70 anos de história.

Ao longo do artigo foram apresentados vídeos do “Natal dos Hospitais” ao longo do tempo, que culmina sempre com a atuação do célebre Coro de Santo Amaro de Oeiras com o seu “A Todos Um Bom Natal”.

Os temas de Natal interpretados por vários artistas foram sempre recorrentes no Natal dos Hospitais, aqui um exemplo disso, num tema de José Félix, “Todos de Mãos Dadas”, em 1997, onde podemos ver o jovem Sérgio Nunes (já desaparecido), Claudisabel, Mónica Sintra, José Freitas (ainda longe de participar no Factor X), Miguel Rivotti, Chiquita e Maria Mendes.

Fotos recolhidas por Miguel Meira

Sobre Miguel Meira 103 artigos
Quando era pequeno, entre histórias da “Cinderela” e cantigas em “Playback”, quis ser como o Carlos Paião – médico e cantor. As doenças e os órgãos acabaram por sair da minha mente, mas a música de alguma forma ficou. Sou um apaixonado incondicional por música portuguesa, como também sou por tudo o que envolva espectáculo, teatro, cinema e televisão (tendo como maior interesse o Festival da Canção e da Eurovisão e os já extintos Jogos Sem Fronteiras). Contudo, profissionalmente, os meus palcos foram outros. Licenciei-me em Ensino de História, dou aulas desta disciplina desde 2008, já trabalhei numa biblioteca e já transcrevi até um livro de posturas do século XIV. Faço parte da equipa do site “Festivais da Canção” desde 2008, e também colaboro no site “Brinca, Brincando”, sobre a temática televisiva. Porque o passado também fala, aceitei o desafio de viajar no tempo no ARDINAS.

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